Depois da Hertz, agora a Avis. Quantos alertas o setor precisa?
A Avis Budget Group , gigante global do setor de locação de veículos, acaba de anunciar um prejuízo que se aproxima de US$ 1 bilhão para 2025 – uma cifra que deveria acender alarmes em qualquer mesa de diretoria que lida com capital intensivo. Não é a primeira vez que vemos isso; a Hertz já havia pavimentado esse caminho de perdas, e o padrão emergente é claro demais para ser ignorado ou atribuído a "casos isolados".
2/22/20263 min read


Depois da Hertz, agora a Avis. Quantos alertas o setor precisa?
A Avis Budget Group , gigante global do setor de locação de veículos, acaba de anunciar um prejuízo que se aproxima de US$ 1 bilhão para 2025 – uma cifra que deveria acender alarmes em qualquer mesa de diretoria que lida com capital intensivo. Não é a primeira vez que vemos isso; a Hertz já havia pavimentado esse caminho de perdas, e o padrão emergente é claro demais para ser ignorado ou atribuído a "casos isolados".
O cerne do problema, para a Avis, reside em ajustes contábeis monumentais, com mais de meio bilhão de dólares em impairment relacionados especificamente à sua frota de veículos elétricos nos EUA. Isso não é um colapso operacional clássico, daqueles que remetem a falhas de gestão de pessoal ou ineficiência logística; é, essencialmente, um erro de precificação do ativo, uma falha na compreensão do "residual". Não se trata de uma falha na operação diária, mas na matemática fundamental do negócio, na premissa de valor de um bem que deveria sustentar o fluxo de caixa.
É crucial entender que essa realidade não decreta o fim dos veículos elétricos. Longe disso. O que ela expõe, com uma clareza brutal, é que o veículo elétrico, como ativo financeiro, exige uma disciplina completamente diferente e uma reavaliação dos modelos tradicionais de gestão de frota e, principalmente, de depreciação. O setor de locação não prospera com o entusiasmo do "hype" tecnológico; ele sobrevive e cresce com a rotação eficiente de capital e a gestão rigorosa do valor residual dos seus ativos.
We are asset managers
A frase do CEO da Avis, "We are asset managers", é, na sua simplicidade, a mais potente declaração de princípio que o setor poderia ouvir. Deveria ser o mantra gravado na parede de cada sala de reunião, um lembrete constante de que o carro, antes de ser um meio de transporte, é um investimento, um ativo, e sua gestão financeira é o oxigênio do negócio.
Enquanto isso, no Brasil, o cenário é de efervescência. Vemos o market share de eletrificados em ascensão, a infraestrutura de carregamento ganhando corpo e as grandes locadoras ampliando sua exposição a essa tecnologia. A discussão, felizmente, está ganhando escala. O país tem vantagens inegáveis: uma matriz elétrica predominantemente renovável, um modelo robusto de venda direta de seminovos que poderia absorver parte desse risco, e um histórico de gestão de frota que, em muitos aspectos, é sofisticado.
Contudo, nenhuma dessas vantagens concede imunidade à matemática implacável do residual. A euforia em torno da eletrificação, por mais justificada que seja pela sustentabilidade e pela inovação, não pode obscurecer as lições duramente aprendidas por empresas como Hertz e Avis. A questão fundamental não é se o veículo elétrico deve entrar na frota, essa batalha já está sendo vencida pela lógica da evolução tecnológica e ambiental.
A pergunta vital é: qual o tamanho da exposição que uma empresa pode e deve assumir, e, mais importante ainda, qual é a estratégia de saída? Como garantir que um ativo que depreciou tão rapidamente para gigantes globais não se torne um peso insustentável no balanço das empresas brasileiras?
O setor global já pagou um preço altíssimo, duas vezes, para aprender essa lição. A escolha que se apresenta agora é clara: vamos aprender com a reflexão, a análise dos dados e a inteligência estratégica dos erros alheios, ou seremos forçados a aprender da forma mais custosa, diretamente no nosso próprio balanço? A provocação não é para frear o avanço, mas para qualificá-lo.
Julian Gritsch - CEO JGCorp
